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Games

Control Resonant inicia virada para a Remedy

A Remedy trocou o dinheiro das publishers pela autopublicação. Nas vendas, a aposta funcionou. No lucro, o teste é o fim do ano

Por Lucas Arraz · Publicado em · aprox. 7 min de leitura

Cena de Control Resonant: personagem de costas enfrenta criaturas em uma rua, com luzes laranjas nas mãos
Crédito: Remedy Entertainment

Resumo

  • Jogos e royalties foram 89% da receita da Remedy no 3º tri, contra 10% em 2024
  • Na comparação anual, a receita do trimestre de Control Resonant mais que triplicou; a de Alan Wake 2 caiu 24%
  • Remedy precisa de cerca de € 4 milhões de EBITDA no 4º tri para cumprir a previsão

A Remedy está apostando em uma mudança de modelo de negócios. Em vez de ser financiada para fazer jogos para outras empresas, a desenvolvedora da Finlândia quer publicar os próprios e ficar com uma parcela maior do que eles vendem.

Control Resonant, lançado em 24 de setembro, foi a maior prova dessa mudança, e os primeiros números mostram que a Remedy pode estar no caminho certo.

Ao reproduzir, o vídeo é carregado pelo YouTube.

Crédito: Remedy Entertainment

Com Resonant, a venda de jogos e royalties passou a dominar a receita da Remedy. Segundo o relatório do terceiro trimestre da empresa, publicado em 3 de novembro, 89% da receita de julho a setembro veio da venda de jogos e de royalties. No mesmo trimestre de 2025, essa fatia era de cerca de metade; em 2024 inteiro, de 10%.

A diferença está em quem paga a conta e quem fica com as vendas. Antes, uma publisher como a Epic Games ou a 505 Games financiava o jogo e pagava a Remedy enquanto ele era feito; depois do lançamento, ficava com a receita e só repassava royalties ao estúdio quando recuperava o investimento. Agora, a própria Remedy publica o jogo, divide o financiamento com parceiros como a Annapurna e registra as vendas desde o primeiro dia. Ganha mais quando o jogo vende bem, mas arca com o prejuízo quando não vende, como aconteceu com FBC: Firebreak.

Trimestre de Control Resonant rende o dobro do recorde anterior

Receita trimestral da Remedy, 1º tri de 2021 ao 3º tri de 2026

Fonte: Remedy

A receita trimestral da Remedy oscilou entre 6,9 e 19,8 milhões de euros de 2021 a meados de 2026. No 3º tri de 2026, com Control Resonant, chegou a 39,6 milhões, o dobro do recorde anterior, de 19,8 milhões no 4º tri de 2021. No trimestre de Alan Wake 2, no fim de 2023, foi de 10,3 milhões.

Dados: Trimestre de Control Resonant rende o dobro do recorde anterior. Receita trimestral da Remedy, 1º tri de 2021 ao 3º tri de 2026
TrimestreReceita (€ milhões)
T1/218,1
T2/219,4
T3/217,4
T4/2119,8
T1/2212,7
T2/229,4
T3/227,9
T4/2213,6
T1/236,9
T2/238,9
T3/237,8
T4/2310,3
T1/2410,8
T2/2410,3
T3/2417,9
T4/2411,7
T1/2513,4
T2/2516,9
T3/2512,2
T4/2517,0
T1/2613,1
T2/2610,2
T3/2639,6

Fonte: Remedy

Fonte: RemedyJogometria · Lucas Arraz

O lançamento também bateu recorde. Control Resonant vendeu 1 milhão de cópias em 21 dias, o lançamento mais rápido da história da Remedy. Alan Wake 2, o recorde anterior, lançado em 27 de outubro de 2023, chegou ao fim daquele ano com 1 milhão de cópias vendidas.

Apesar da largada acelerada para o título autopublicado, o teste do lucro ainda não terminou para a desenvolvedora.

A Remedy registrou um pequeno lucro operacional, de 0,6 milhão de euros, mas encerrou o trimestre com prejuízo líquido de 0,1 milhão. O resultado de 2026 depende das vendas de fim de ano.

O trimestre de Control Resonant em três números

Remedy, julho a setembro de 2026

Fonte: Remedy

Receita de 39,6 milhões de euros no 3º tri de 2026, 3,2 vezes o mesmo trimestre de 2025; 89,1% dela veio de jogos e royalties, contra 10% em 2024; e cerca de 4 milhões de euros de EBITDA a fazer no 4º tri para superar 2025.

Dados: O trimestre de Control Resonant em três números. Remedy, julho a setembro de 2026
IndicadorValorContextoUnidade
Receita no trimestre39,63,2 vezes o 3º tri de 2025€ milhões
Receita vinda de jogos e royalties89,110% em 2024%
EBITDA a fazer no 4º tri4,0para superar o EBITDA de 2025€ milhões

Fonte: Remedy

Fonte: RemedyJogometria · Lucas Arraz

Como a Remedy ganhava dinheiro, e como ganha agora

Durante a maior parte da sua história, a Remedy trabalhou como a maioria dos estúdios independentes: uma publisher, a empresa que financia e lança o jogo, paga pelo desenvolvimento e fica com a maior parte do que ele vende.

Foi assim com Control, da 505 Games, e com Alan Wake 2, da Epic Games. O modelo dá segurança, porque o dinheiro entra enquanto o jogo é feito, mas limita o ganho: o estúdio só recebe uma fatia das vendas (royalties) depois que a publisher recupera o que investiu.

Em 2019, ano de Control, 39% da receita da Remedy veio de jogos, sobretudo royalties da 505 Games. Depois vieram os contratos com Epic, Tencent e Rockstar, e a fatia caiu para 10% em 2022, sem passar de 15% até 2024.

Em 2024, a empresa era basicamente uma prestadora de serviços. No entanto, no terceiro trimestre de 2026, com Control Resonant, 89% da receita veio de jogos e royalties.

Jogos voltam a ser a maior fonte de receita da Remedy

Participação de venda de jogos e royalties na receita total, por ano, 2019 a 2026

Fonte: Remedy · *2026: janeiro a setembro.

Jogos e royalties eram 39,4% da receita da Remedy em 2019 e 36,5% em 2020. A fatia caiu para 10,3% em 2022 e 10,1% em 2024, subiu para 44,7% em 2025 e chegou a 70% de janeiro a setembro de 2026.

Dados: Jogos voltam a ser a maior fonte de receita da Remedy. Participação de venda de jogos e royalties na receita total, por ano, 2019 a 2026
AnoParticipação de jogos e royalties (%)Jogos e royalties (€ milhões)Taxas de desenvolvimento (€ milhões)Receita reportada (€ milhões)
201939,412,519,231,6
202036,515,026,141,1
202119,58,736,044,7
202210,34,539,143,6
202315,35,228,733,9
202410,15,145,650,7
202544,726,632,959,5
2026*70,044,118,962,9

Fonte: Remedy

Nota: *2026: janeiro a setembro.

Fonte: RemedyNota: *2026: janeiro a setembro.Jogometria · Lucas Arraz

A guinada foi planejada. Em fevereiro de 2024, a Remedy recomprou da 505 Games os direitos de Control por cerca de 17 milhões de euros e, desde 2025, vende o primeiro jogo diretamente.

Parte da subida da curva vem da contabilidade: quando publica, a empresa registra o valor bruto das vendas, e não só a fatia que antes recebia dos parceiros. Mesmo descontado esse efeito, a mudança é real: hoje a Remedy depende do que vende, não do que é paga para fazer.

A segunda tentativa deu certo

Control Resonant não foi a primeira tentativa. Em junho de 2025, a Remedy lançou FBC: Firebreak, que ela chama de seu primeiro jogo autopublicado em PC e consoles.

O jogo atraiu 1 milhão de jogadores em dez dias, puxado por Game Pass e PlayStation Plus, mas vendeu pouco. Em outubro de 2025, a empresa emitiu um alerta de resultados e reconheceu uma perda de 14,9 milhões de euros, a maior parte do que tinha gasto no projeto.

Um ano depois, o resultado foi o oposto. Além do recorde de vendas, Control Resonant teve nota 83 no Metacritic e 91% de avaliações positivas na Steam.

Cerca de metade dos jogadores nunca tinha jogado Control, e 2,4 milhões de pessoas ainda têm o jogo na lista de desejos. Os Estados Unidos responderam por quase metade das vendas; nos consoles, o Brasil ficou entre os três principais mercados por unidades vendidas.

A comparação com os lançamentos anteriores mostra o que mudou. Quando Alan Wake 2 saiu, em outubro de 2023, a receita da Remedy no trimestre caiu 24% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior: o dinheiro do desenvolvimento acabou com o lançamento, e as vendas ficaram com a Epic até ela recuperar o investimento, o que só aconteceu no fim de 2024. Com Control Resonant, a receita do trimestre mais que triplicou em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, com apenas uma semana de vendas.

Control Resonant triplicou a receita do trimestre; Alan Wake 2 a derrubou

Receita da Remedy no período de cada lançamento e no mesmo período do ano anterior

Fonte: Remedy · Control: 2º semestre de 2019 (a Remedy reportava por semestre).

No 2º semestre de 2019, com Control, a receita foi de 10,9 para 17,8 milhões de euros. No 4º tri de 2023, com Alan Wake 2, caiu de 13,6 para 10,3 milhões. No 3º tri de 2026, com Control Resonant, subiu de 12,2 para 39,6 milhões.

Dados: Control Resonant triplicou a receita do trimestre; Alan Wake 2 a derrubou. Receita da Remedy no período de cada lançamento e no mesmo período do ano anterior
JogoMesmo período do ano anterior (€ milhões)Período do lançamento (€ milhões)
Control10,917,8
Alan Wake 213,610,3
Control Resonant12,239,6

Fonte: Remedy

Nota: Control: 2º semestre de 2019 (a Remedy reportava por semestre).

Fonte: RemedyNota: Control: 2º semestre de 2019 (a Remedy reportava por semestre).Jogometria · Lucas Arraz

O efeito já aparece no ano. De janeiro a setembro, a Remedy faturou 62,9 milhões de euros, mais que em qualquer ano inteiro desde ao menos 2010 (o recorde anual era de 59,5 milhões, em 2025). Nas vendas, a aposta funcionou.

O que ainda falta: o lucro

Vender bem não é o mesmo que lucrar, e o trimestre também ficou abaixo do que o mercado esperava. A Inderes, principal casa de análise que acompanha a Remedy, projetava receita de 48 milhões de euros e EBITDA de 10,4 milhões; saíram 39,6 e 6,8 milhões. Parte da diferença foi de calendário: a edição física só chegou às lojas em 15 de outubro, já no quarto trimestre. Na teleconferência de resultados, a direção admitiu que as vendas na Europa, sobretudo na França e na Alemanha, ficaram abaixo do esperado. As ações recuaram depois da divulgação.

Os custos explicam a margem estreita. A Remedy pagou a maior campanha de marketing da sua história e começou a amortizar o que gastou para desenvolver o jogo. A Annapurna, que financiou metade do orçamento de desenvolvimento, fica com uma parte da receita até recuperar o investimento, e as lojas cobram suas taxas. O caixa somado às aplicações caiu de 36,5 para 24,1 milhões de euros em um ano, mas parte disso é prazo: o dinheiro das vendas nas plataformas só entra no trimestre seguinte, e as contas a receber subiram de 8,4 para 27,7 milhões. Ao autopublicar, a Remedy fica com uma parcela maior do retorno, mas também com maior exposição ao risco comercial.

O próximo teste é o quarto trimestre. A Remedy prometeu terminar 2026 com receita e EBITDA maiores que os de 2025. A receita já superou. O EBITDA soma 7,3 milhões até setembro, contra 11,3 milhões no ano passado inteiro. Para cumprir a promessa, a empresa precisa de cerca de 4 milhões de euros de EBITDA no quarto trimestre, que inclui as vendas de Natal e as da edição física. Para a Inderes, cumprir a previsão é praticamente certo.

O próprio CEO, Jean-Charles Gaudechon, escreveu no relatório que as vendas do resto do ano vão definir 2026.

A conclusão, por enquanto: Control Resonant provou que a Remedy sabe vender um jogo que ela mesma publica, o que Firebreak não tinha conseguido. O fim do ano será o próximo teste, não um veredito: cumprir a previsão não significa que o jogo já recuperou todo o investimento, nem garante lucro líquido no ano. Se as vendas seguirem fortes em 2027, a meta de dobrar a receita de 2024 até 2027, para cerca de 101 milhões de euros, deixa de parecer distante.

Até lá, o remake de Max Payne 1 e 2, que a Remedy desenvolve para a Rockstar Games, garante receita de desenvolvimento enquanto o próximo jogo próprio é preparado.

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