O que seria preciso para fazer um jogo perfeito do Kirby? Um mundo aberto como o de The Legend of Zelda: Breath of the Wild? Desafios de arrancar os cabelos como os de Elden Ring? A narrativa de gráficos realistas de The Last of Us? Kirby and the Forgotten Land não tem nenhum desses elementos e, mesmo assim, é o jogo perfeito para o mascote rosa.
A nova aventura, que estreia em 25 de março no Nintendo Switch, não tinha obrigação nenhuma de ser tão boa. No mesmo console de franquias como Super Mario, The Legend of Zelda e Pokémon, a bolota rosa criada por Masahiro Sakurai (Kid Icarus, Super Smash Bros.) muitas vezes não recebe a mesma atenção dos colegas de empresa.
Enquanto a Nintendo cozinha os fãs com a sequência de Breath of the Wild há mais de um ano, Kirby and the Forgotten Land foi anunciado e lançado em menos de seis meses, pouco tempo para o marketing fazer grande diferença. Então, sim, talvez você não ouça falar muito do jogo no futuro, mas ele será com certeza uma das melhores peças do catálogo imponente que a Nintendo monta para o Switch em 2022, que ainda terá Pokémon Scarlet e Violet, Splatoon 3, Bayonetta 3 e o novo Zelda.
Mesmo entre tantos lançamentos de peso, Forgotten Land consegue se destacar. O jogo desafia expectativas, se esforça para expandir limites e apresenta boas ideias, entregando uma das aventuras mais consistentes do rosado. Sem mundo aberto, sem desafios extremos e sem gráficos realistas, ele surpreende e envolve do começo ao fim, graças à estrutura coesa da experiência, que dá vontade de acompanhar a história e de completar 100% do conteúdo.
O exclusivo diverte por horas a fio, unindo fases de plataforma criativas em 3D a sistemas de RPG para aprimorar as habilidades copiadas por Kirby. Mais do que ir do início ao fim de cada fase, o jogador se sente compelido a encontrar lugares secretos, cumprir missões secundárias e reunir o máximo de colecionáveis para deixar o protagonista mais poderoso.
Esse conjunto cria um ótimo nível de imersão e dá sentido a cada colecionável ou segredo espalhado pelas fases. Os níveis não têm o peso planetário de Super Mario Odyssey, mas a sensação de que cada canto tem um propósito dá profundidade a Forgotten Land.
História
Kirby and the Forgotten Land tem um nome bem explicativo. A aventura se passa fora do planeta Pop Star: o protagonista e os Waddle Dees que ele protege são levados por fendas no espaço para uma terra esquecida, com ruínas de uma civilização que tinha prédios, shopping centers e viadutos.
Os cenários são um dos pontos altos do jogo. Não por acaso, a terra esquecida do título foi comparada à Seattle de The Last of Us Parte II. As ruínas lembram cidades humanas desabitadas depois de um apocalipse, com construções de concreto tomadas pela floresta.
É o jogo de Kirby mais bonito e mais cuidadoso nos detalhes. O ambiente é um grande personagem da aventura, com horizontes bonitos e contemplativos que combinam com a trama. Muitas vezes, Kirby aparece minúsculo diante da imensidão das fases, com posicionamentos de câmera variados que criam o clima ideal para a jornada.
A terra aparentemente abandonada pelos humanos é dominada por animais, como tigres, raposas e flamingos, que fazem o papel de vilões. Kirby está num lugar inóspito e precisa resgatar os Waddle Dees sequestrados.
Jogabilidade
Forgotten Land tem dois tipos de fase: as que avançam a história, com a missão de resgatar grupos de Waddle Dees, e desafios que exigem habilidades específicas em tempo limitado. O primeiro tipo é o centro da experiência e combina mecânicas complexas de exploração, usando diferentes habilidades de Kirby para revelar lugares secretos muito bem posicionados. Cada desafio superado ou segredo desvendado garante mais Waddle Dees resgatados.
A campanha principal leva cerca de 15 horas, e felizmente é só o começo. Dificilmente você vai explorar tudo de uma fase principal na primeira ou mesmo na segunda tentativa.
Mais do que chegar ao fim, cada nível oferece facetas diferentes e divertidas, incluindo missões secundárias. As atividades tradicionais do gênero, como terminar a fase no menor tempo, dão lugar a tarefas mais criativas, como achar um jeito de dormir numa espreguiçadeira ou levar filhotes de pato até a mãe.
Cada fase e cada mundo têm um conjunto próprio de missões secundárias, não reveladas ao jogador, o que cria uma camada especial de atenção e curiosidade na exploração. Há ainda colecionáveis, como réplicas dos personagens e receitas. Encontrar tudo é recompensador e envolvente.
Resgatar mais Waddle Dees, por exemplo, abre mais funções e atividades na cidade que recebe Kirby. Encontrar receitas bem escondidas permite aprimorar as habilidades copiadas e deixar o protagonista muito mais forte. Dar uma boa justificativa para cada item do cenário é o que faz o jogo ser aproveitável de ponta a ponta.
As fases principais se somam a desafios contra o relógio, que testam os poderes de Kirby e rendem itens para aprimorar habilidades na vila Waddle Dee Town.
Waddle Dee Town
A Waddle Dee Town reúne todos os elementos das fases e funciona como base de operações. Quanto mais Waddle Dees o jogador salva, mais atividades são desbloqueadas na cidade.
As atividades são variadas e lembram o jogador de resgatar o máximo possível de companheiros durante a campanha. As ideias seguem o clima leve e criativo do jogo: no Waddle Dee Cinema, dá para rever as animações de Forgotten Land; no Waddle Dee Café, é possível comprar itens de cura e participar de um minijogo de atendimento.
O destaque da vila é a Waddle Dee's Weapons Shop, onde Kirby aprimora suas habilidades. Como em todos os jogos da série, o protagonista copia poderes ao engolir inimigos, e essas habilidades se transformam e crescem com os aprimoramentos vendidos na loja.
Com as estrelas das fases de tempo e as receitas escondidas nos níveis principais, o mascote pode transformar o clássico poder de soltar fogo pela boca numa poderosa versão de dragão, que faz Kirby voar e aumenta a potência das chamas.
A lista de poderes copiáveis não é extensa, mas os aprimoramentos fazem Forgotten Land fugir do básico. É interessante ver Kirby mudar a cada melhoria, e mesmo assim os desafios do jogo não ficam quebrados, mais uma prova da consistência do conjunto.
Mouthful Mode
Uma das grandes novidades é que Kirby não só absorve habilidades de inimigos, como também engole grandes objetos do cenário, deixados pela civilização que abandonou aquele mundo.
No Mouthful Mode, Kirby engole carros, máquinas de refrigerante, cones de trânsito e toda sorte de objetos, num belo alívio cômico. Não há muito o que fazer com o Carby, a versão carro do protagonista, mas é extremamente fofo e engraçado ver o bonequinho rosa tentando engolir um automóvel inteiro e depois acelerar tunado por pistas de corrida.
O Mouthful Mode aparece de forma pontual, quase sempre para abrir um caminho secreto, mas ajuda a completar a jogabilidade de plataforma. É uma ideia muito boa, com ótima execução, que garante momentos de descontração.
Muitas vezes, os objetos a engolir estão escondidos no cenário ou indicam que um novo quebra-cabeça vem pela frente. As cenas de Kirby engolindo coisas muito maiores que ele são tão boas que fica o pedido para a Nintendo nunca mais tirar essa mecânica da série.
Kirby and the Forgotten Land tem cooperativo?
Sim, é possível jogar em dupla. A experiência, no entanto, não acompanha a profundidade do modo para um jogador. Assim como em Super Mario Odyssey, o novo Kirby limita muito a atuação do segundo jogador.
Quem pega o segundo controle joga como Bandana Waddle Dee. Esse jogador não copia habilidades, não participa das fases de tempo e não explora o mapa por conta própria. Toda vez que Kirby vai para um lado, o personagem secundário é tratado como tal e arrastado junto.
Chega a ser sem graça controlar uma sequência de golpes de lança enquanto o outro jogador rouba poderes e engole carros, caminhões e cones. Ainda assim, é bom poder jogar em cooperativo, mesmo que essa claramente não seja a melhor forma de aproveitar o jogo.
Kirby and the Forgotten Land vale a pena?
Assim como seu protagonista, Kirby and the Forgotten Land é um jogo redondo. A aventura é consistente do início ao fim, sem mecânicas soltas nem excessos. Todo o conteúdo está ali por um motivo, cumpre uma função e contribui para uma jornada leve e divertida. Mais do que boas fases de plataforma, a HAL Laboratory se preocupou em criar níveis completos, em que cada pedaço tenta surpreender, seja nas missões secundárias criativas, seja nos lugares secretos bem pensados.
Os combates também estão bem fluidos. Kirby fica muito mais forte com os aprimoramentos, mas o deslocamento em três dimensões e as batalhas contra chefes são elaborados o bastante para manter o desafio. Os dois modos de dificuldade, um normal e outro mais fácil, ajudam a agradar a todos os jogadores.
Mesmo sem chamar tanta atenção quanto os companheiros de Nintendo, Forgotten Land reforça como o catálogo de 2022 do Switch está pronto para um dos melhores anos do console. O jogo tem tudo para entreter e envolver, e faz o jogador querer engolir todo o conteúdo da aventura com a mesma destreza do protagonista.