Os remakes sempre foram um momento mágico para Pokémon. São a oportunidade perfeita de explorar a nostalgia de uma aventura e levá-la adiante com a tecnologia dos consoles mais recentes da Nintendo. Pelo menos era assim até agora.
Pokémon FireRed e LeafGreen trouxeram cores, uma nova história e conexão à internet para Pokémon Red e Blue. Pokémon Omega Ruby e Alpha Sapphire turbinaram a terceira geração com mega evoluções inéditas, gráficos 3D e a chance de voar num Latios por Hoenn.
Pokémon Brilliant Diamond e Shining Pearl, os aguardados remakes de Diamond e Pearl lançados em novembro para Nintendo Switch, falham miseravelmente em fazer o material original avançar. A dupla parece um Krabby, que anda de lado em relação às aventuras lançadas há 15 anos para o Nintendo DS.
Não me leve a mal. Brilliant Diamond e Shining Pearl ainda entregam o mínimo que todo fã espera de um Pokémon: batalhas, capturas, o senso de aventura e a magia da série.
Os jogos funcionam como qualquer Pokémon dos últimos 25 anos e provavelmente vão agradar quem não se incomoda com a fórmula repetida. A pergunta que fica é: até quando o mínimo vai sustentar a franquia?
Uma Sinnoh sem brilho
Sinnoh pode não estar entre as gerações mais queridas pelos fãs, mas a importância dos jogos da quarta geração precisa ser reconhecida. Diamond, Pearl e Platinum são o ápice de uma era: reúnem o que Pokémon tinha inventado de melhor até ali, como batalhas em dupla, concursos de beleza, entrevistas, variações de clima e muitas outras mecânicas.
Os três jogos foram uma explosão de cores e cenários exagerados, com uma história que expandiu as fronteiras do universo da franquia. Sinnoh apresentou Pokémon capazes de alterar a estrutura do tempo e do espaço e vilões com o plano de destruir toda a realidade. Na época, a trama trouxe uma nova escala de profundidade para a mitologia da série, que ganhou até um deus nessa geração com a chegada de Arceus.
Com tantos passos arriscados para uma franquia tão conservadora, refazer Sinnoh não era tarefa fácil. Mas, terminada a campanha, fica a sensação de que a Game Freak nem tentou surpreender o jogador e honrar o espírito inventivo da quarta geração.
Entre as adições, destacam-se a personalização de Poké Bolas e do visual do protagonista. Sim, dá para trocar de roupa em Brilliant Diamond e Shining Pearl. A novidade mais interessante é a construção de bases: o jogador decora um espaço próprio no Grand Underground e, com isso, atrai Pokémon mais raros conforme avança.
As novidades são interessantes, mas não sustentam o remake sozinhas. O Underground virou Grand Underground, um labirinto subterrâneo com várias salas de Pokémon e itens mais raros. Só ali aparecem Pokémon selvagens em tempo real no mapa, recurso que vale para todas as áreas desde Let's Go Pikachu e Let's Go Eevee.
Explorar o mapa subterrâneo é legal, mas perde a graça rápido. Há pouco conteúdo no Grand Underground.
O que ficou de fora de Pokémon Platinum
Pela primeira vez, os remakes ignoram a versão mais completa da geração original. Todo o conteúdo de Platinum, incluindo o Battle Frontier, o Distortion World e a reestruturação dos ginásios de Diamond e Pearl, ficou de fora. Não faz sentido refazer a história a partir das versões menos completas, mas é o que temos.
O visual de Buddy Poke
A essa altura da Elite dos Quatro, já sabemos que a Game Freak não tem interesse, ou braços, para entregar jogos que aproveitem ao máximo a capacidade gráfica do Nintendo Switch. Por mais que os fãs peçam um Pokémon nos moldes de The Legend of Zelda: Breath of the Wild ou Super Mario Odyssey, lançados em 2017, isso parece improvável.
Pokémon Sword e Shield, de 2019, ficam atrás das aventuras mais bonitas do Switch, mas foram avanços consideráveis para uma franquia avessa a mudanças. Avanços que não chegaram aos remakes.
Brilliant Diamond e Shining Pearl não adotaram os gráficos de Sword e Shield, e sim um visual que lembra o estilo chibi, desenho japonês que deixa os personagens mais fofos, como bonequinhos de cabeça grande. Se você nasceu antes dos anos 2000, provavelmente vai associá-lo ao Buddy Poke, popular jogo social do Orkut.
Criticar um jogo só pelos gráficos é raso. O estilo de arte é uma escolha, e refinamento visual não decide se uma aventura é boa ou ruim.
Os problemas do visual estão em outro lugar. Primeiro, os jogos tiram o brilho, a iluminação e a exuberância das cidades originais de Sinnoh. Por estranho que pareça, o mapa da quarta geração é mais deslumbrante nos pixels de antigamente do que nas cores pastéis dos remakes.
Há também um descompasso entre o design e a jogabilidade. Os remakes mantêm as proporções dos mapas originais, que não combinam com a inédita possibilidade de andar na diagonal. Com rotas pensadas para o deslocamento vertical e horizontal, mover o protagonista vira um exercício de paciência, batendo em quinas e portas.
A situação piora à medida que o jogo avança e fica claro que os remakes não receberam o polimento necessário. Se Arceus é a estrela do momento da The Pokémon Company, o diabo está nos detalhes destes jogos.
Um estúdio que não entendeu Pokémon
A parte central do desenvolvimento ficou com a ILCA, estúdio japonês que presta apoio a outras desenvolvedoras e ajudou a finalizar títulos como Yakuza: Like a Dragon. A equipe assumiu a missão de executar as ideias dos diretores da Game Freak, que está ocupada com Pokémon Legends: Arceus, previsto para janeiro de 2022.
O volante criativo pode estar nas mãos da Game Freak, mas este é um Tauros desgovernado. Em vários momentos, fica claro que a equipe não tinha experiência com Pokémon e não soube dar o polimento final na jogabilidade.
O ponto mais crítico é a inteligência artificial. Os treinadores adversários seguem um roteiro que não reage às ações do jogador, o que leva uma campanha já fácil a um nível de marasmo comparável a atravessar um oceano nas costas de um Lapras.
Muitas vezes, os treinadores usam golpes de suporte em vez de atacar o seu Pokémon com um golpe superefetivo fatal. A reação da inteligência artificial era um problema resolvido na franquia, e até replicado por fãs em modificações muito difíceis, como Pokémon Radical Red.
Os movimentos dos Pokémon fora da Poké Bola também não fazem sentido muitas vezes. Um Gyarados tem o tamanho de uma minhoca atrás do jogador, enquanto Milotic apenas plana, estática, seguindo o treinador.
Daria para dar um desconto à Game Freak se, duas gerações atrás, Pokémon não tivesse incluído os monstrinhos no mapa de forma perfeita. O que os remakes apresentam é uma clara regressão, num jogo que custa cerca de R$ 300 no Brasil.
Vale a pena comprar Brilliant Diamond e Shining Pearl?
Quem tem pouco contato com os jogos principais de Pokémon, ou nunca passou por Sinnoh, vai encontrar o necessário para se divertir sem pretensão nos remakes, sem grandes emoções.
O jogo pode cansar com a repetição de Pokémon selvagens no mato, a burrice dos treinadores controlados pela inteligência artificial e times adversários com até seis monstrinhos da mesma espécie. Mas as bases que fazem de Pokémon uma franquia de sucesso até hoje estão lá.
Para quem já conhece Sinnoh e há tempos espera que a franquia avance, Brilliant Diamond e Shining Pearl não têm o brilho prometido pelo título. Faltou coragem e polimento para que a aventura fosse de fato um remake e um jogo à altura da série.
Para os dois grupos, os jogos não valem o preço cobrado hoje na loja digital da Nintendo.