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Review Deathloop: inovador e difícil de entender

A Arkane Lyon mistura tiro, poderes, furtividade e um ciclo temporal num jogo criativo e único

Por Lucas Arraz · Publicado em · aprox. 11 min de leitura

Publicado originalmente em Canaltech

Ilustração de Julianna e Colt apontando armas um para o outro sobre fundo laranja em Deathloop
Crédito: Divulgação/Bethesda

Resumo

  • Jogabilidade criativa: cada dia em Blackreef é diferente, mesmo repetindo o ciclo.
  • As primeiras horas confundem, com muitos menus e textos para assimilar.
  • História e finais não acompanham a ousadia do resto do jogo.

É difícil definir Deathloop. A nova aventura da Arkane Lyon é um jogo de tiro em primeira pessoa com poderes mágicos, armas personalizáveis, missões de assassinato e investigação furtiva, tudo dentro de um ciclo temporal. Como se a lista não bastasse, o jogo joga uma boa dose de caos na equação para dar liga a tudo.

O resultado impressiona pela criatividade e pela cara única. Deathloop é diferente de tudo que você jogou neste ano, posso garantir. A fórmula, no entanto, às vezes tropeça na própria ousadia. Montar o quebra-cabeça de como matar oito alvos poderosos em 24 horas é extremamente divertido, mas o excesso de elementos atropela o jogador e a história em vários momentos. Foi difícil aprender a navegar e entender o que estava acontecendo.

As primeiras horas são as mais críticas. O primeiro dia na ilha de Blackreef funciona como um tutorial de cerca de uma hora, e terminei esse trecho sem entender nada da jogabilidade, da trama ou do que fazer a seguir. A melhor parte foi descobrir que, mesmo totalmente perdido, eu só tinha arranhado a superfície do que viveria naquela ilha.

Boa parte do problema nasce justamente do que faz o jogo tão bom: mecânicas novas e uma mistura caótica de elementos. Aprender a navegar pelo ciclo temporal, escolher uma missão e entender a personalização de armas e poderes de Colt exige assimilar muitos menus e ler muitos textos. Passada essa barreira inicial, a experiência se torna incrível.

É louvável que a Arkane Lyon tenha apostado todas as fichas na ideia e feito um jogo que não tem medo de abraçar a anarquia de Blackreef, tanto na jogabilidade quanto na progressão da trama.

Ao reproduzir, o vídeo é carregado pelo YouTube.

Crédito: PlayStation/Bethesda

História

Em Deathloop, assumimos o papel de Colt. O protagonista vive dentro de uma distorção temporal que faz a enigmática ilha de Blackreef repetir o mesmo dia por toda a eternidade. Sem preocupação com o amanhã, a ilha virou morada de uma sociedade decadente que festeja todos os dias, mas esconde a pouca humanidade de quem deixou de ver sentido na morte do próximo.

Convencido de que precisa quebrar o ciclo e fugir, Colt embarca na missão de matar os oito Visionários, os alvos que mantêm o pesadelo temporal vivo. Todos precisam morrer antes que o dia reinicie, tarefa particularmente difícil de cumprir em um único dia.

Colt é um dos poucos na ilha que guardam memórias de um ciclo para o outro. Essa conveniência narrativa permitiu à Arkane criar uma história com efeito borboleta: cada ação do protagonista avança a narrativa e gera consequências num mundo em que, em tese, as ações não importam.

Na cruzada contra os oito alvos, Colt se arma com pistolas e outros armamentos encontrados pela ilha. Também conta com habilidades especiais, como correr mais rápido e dar pulo duplo, e com as Placas, que dão poderes sobrenaturais como teletransporte e invisibilidade.

Nenhuma dessas habilidades é aprendida. Elas são encontradas no mapa como itens que podem ser recolhidos e equipados, e por isso podem ser perdidas se Colt morrer durante a exploração.

A Arkane Lyon merece elogios pela progressão. O jogador pode repetir o mesmo dia sempre, mas um dia nunca será igual ao outro. O design de níveis é rico e abre caminhos, salas e possibilidades inéditas mesmo enquanto você repete os quatro cenários, em quatro períodos do dia, até o fim.

Curiosamente, o jogo aposta alto na jogabilidade, mas não arrisca na história. A trama tem reviravoltas dignas de novela e um desfecho que não combina com a grandiosidade da caminhada. Os três finais possíveis são tão contidos e simples, comparados ao resto, que soam anticlimáticos. Em qualquer um deles, fica a sensação de que o jogo não acabou.

A história também peca na relação entre Julianna e Colt. O embate entre os dois é marcante de jogar, mas estranho de acompanhar. Quando entendi o que liga os personagens, os diálogos e as motivações dos combates perderam o sentido. A Arkane quis usar o espírito anárquico da ilha como base da relação entre os protagonistas, mas o tiro sai totalmente da rota.

Navegando por menus

Deathloop tem muita personalidade e certeza das mecânicas novas que quer adotar. Talvez por isso o começo seja difícil de assimilar, com muitas opções estranhamente novas. Mas não desista.

Ao abrir um save, o jogador encontra uma infinidade de menus, opções e muito, muito texto. Nada contra leitura em jogos, mas as curtas sessões de ação frenética do início, intercaladas com pistas para ler e uma interface para decifrar, não deixam boa primeira impressão. À primeira vista, o jogo parece picotado por menus.

Há uma razão para isso. Os oito Visionários estão espalhados por quatro distritos de Blackreef, em quatro períodos do dia: madrugada, manhã, tarde e noite. O jogo não permite trocar de distrito ou de período por conta própria.

Para avançar no tempo ou ir a outro distrito atrás de um novo alvo, é preciso levar Colt a uma base secreta que funciona como lobby. Ali, o jogador acessa os menus, equipa as armas recolhidas para o próximo período, infunde itens com Residuum para que sobrevivam à volta do tempo e lê as pistas sobre o paradeiro dos Visionários.

Com missões curtas no começo, sua primeira experiência será algo simples, como abrir um cofre ou uma porta, e voltar ao lobby e aos incontáveis menus atrás das pistas descobertas.

São essas pistas que ajudam a escolher o distrito e o período seguintes. O jogo deixa o jogador decidir livremente o próximo passo, com base no que reuniu sobre a localização dos Visionários.

Multiplayer: jogo de gato e rato

A principal algoz de Colt é Julianna, uma assassina rival sempre à espreita. Ela pode ser controlada por outro jogador, que decide atrapalhar a campanha de um Colt pelo mundo. Como Colt, encontrei várias Julianas diferentes: algumas partiam para cima com tudo, outras preferiam a furtividade e se escondiam.

O multiplayer diversifica ainda mais a experiência e torna cada dia diferente do outro. Não é só Colt que pode variar e inventar no mundo do jogo: uma Julianna pode obrigar o jogador a mudar o estilo de exploração e de progressão.

No geral, jogar com Julianna é mais divertido do que correr o risco de perder todo o avanço na história ao morrer como Colt. A antagonista não perde nada quando é morta pelo protagonista, enquanto Colt arrisca pistas, armas e poderes acumulados ao longo do dia.

Para ser sincero, o multiplayer não parece muito justo. É natural que alguém escolha jogar como Julianna depois de terminar o jogo. Esse jogador conhece melhor os detalhes da ilha e tem todos os NPCs como aliados contra um Colt que ainda tenta entender o que está acontecendo.

No fim das contas, porém, o saldo é positivo. Quem não quer ser atacado por bons jogadores pode deixar Julianna nas mãos da inteligência artificial. E quem já terminou a história como Colt, mas quer continuar acumulando armas e explorando Blackreef, pode seguir nesse mundo no papel da vilã.

A liberdade de jogar como Julianna é divertida, ainda mais anárquica, e talvez seja a experiência definitiva do mundo de Deathloop e dos jogos da Arkane Lyon.

Conhecimento é poder

Cada novo ciclo é uma chance de aprender com o passado e se adaptar para o futuro. A arma mais forte do jogo é a informação. As pistas encontradas ao longo da jornada são essenciais para eliminar os alvos antes que o dia reinicie.

É preciso descobrir relacionamentos, decorar rotinas e ouvir diálogos para mudar o destino e fazer os Visionários se reunirem no mesmo lugar.

No lobby, Colt pode analisar todas as pistas reunidas e decidir o próximo passo. Para os mais apressados, que não querem ler cada pista, a Arkane criou uma interface que resume as informações coletadas e sugere ações a seguir.

Exploração em Blackreef

Deathloop é um caldeirão de referências. O jogo bebe de Hitman e da forma como The Legend of Zelda: Majora's Mask lida com o tempo. A aventura de Link é a base do ciclo de um dia, ao lado de All You Need Is Kill, o mangá que deu origem ao filme No Limite do Amanhã.

Indo do Japão a Hollywood em busca de referências, o jogo constrói uma estética com personalidade. Blackreef é um ambiente retrofuturista inspirado nos anos 1960, que muitas vezes lembra os cenários de BioShock Infinite.

Como o mundo não é muito grande, a Arkane teve tempo de trabalhar bem cada distrito. As quatro partes da ilha têm casas, telhados, corredores e todo tipo de rota alternativa para explorar e eliminar inimigos, com ou sem furtividade.

Há sempre mais de duas ou três maneiras de chegar a um alvo: pelo teto, por uma porta secreta ou pela porta da frente, se você resolver encarnar um Colt destemido.

Progredir exige criatividade e premia quem arrisca opções menos usuais do que em outros jogos de tiro. Quase nunca a solução mais inteligente é pegar uma arma e encarar um Visionário de frente. Muitas vezes, o caminho é a alternativa mais galhofa possível, como invadir uma boate pelo esgoto, sabotar um show de fogos de artifício ou descobrir o ninho de amor de dois personagens.

Deathloop é um roguelike?

A resposta é sim. E não.

Ao morrer ou completar um dia, Colt perde todos os itens, o Residuum e os materiais que não foram infundidos para resistir à volta do tempo. Toda manhã, ele acorda bêbado na praia onde o jogo começa, para reviver as mesmas horas.

O que muda de um ciclo para o outro são as pistas recolhidas para arquitetar o plano final contra os oito Visionários, além das melhorias definitivas dos itens equipados e infundidos, que deixam Colt mais letal.

Voltar ao começo, seja morrendo, seja sem completar a missão, dá ao jogo uma cara de roguelike. Mas só a princípio.

Deathloop se aproxima de Hades, um novo tipo de roguelike que motiva o jogador a repetir os mesmos trajetos para ficar mais forte e conhecer mais da história. A grande verdade, porém, é que você até pode viver o mesmo dia, mas, como já disse, ele nunca será o mesmo.

Completar uma missão ou achar uma pista em 24 horas é como passar de fase: muda a estrutura do jogo, libera novas cenas e abre possibilidades. Cada dia é efetivamente diferente, seja por áreas novas, por ações passadas que mudam a linha do tempo ou por descobertas do dia anterior.

A repetição poderia ficar monótona no início, mas descobrir como progredir num ciclo temporal repetitivo acabou sendo recompensador.

Vale a pena?

Se Deathloop fosse um prato da culinária brasileira, seria um cuscuz paulista: um claro incremento da receita que a Arkane Lyon fez em Dishonored, com uma série de ingredientes novos. O resultado vai agradar uns, parecer estranho para outros, mas certamente será reconhecido como uma aposta exagerada e arriscada por um sabor novo.

Se você busca ação e diversão crua num jogo de tiro, ou sente saudade de Dishonored, Deathloop será um dos melhores jogos de 2021 para você. Se procura histórias emocionantes, como em outros exclusivos de PlayStation, a aventura não entrega o necessário para envolver o jogador. A trama e o desfecho não acompanham o potencial de inovação do resto.

O jogo faz bom uso do DualSense, o controle do PS5. Arrisco dizer que a Arkane entendeu o novo controle da Sony melhor do que os estúdios que lançaram Ratchet & Clank: Rift Apart, Returnal e Ghost of Tsushima: Director's Cut nos últimos meses. Chega a ser engraçado, considerando que um dos estúdios que melhor usaram o controle até agora pertence à Microsoft.

O feedback tátil e os gatilhos adaptáveis estão integrados à jogabilidade, e o alto-falante do controle é usado para surpreender o jogador quando Julianna aparece para importunar Colt pelo rádio.

A principal falha é a inteligência artificial dos inimigos. Os antagonistas de Colt são burros: não é difícil eliminar um inimigo ao lado de outro sem que este esboce reação. Os adversários também têm dificuldade de perseguir o protagonista, o que deixa a ação furtiva um pouco sem graça.

Deathloop é diferente de tudo que joguei nos últimos tempos. Se você der tempo para entender o que a Arkane construiu nessa nova franquia, ele se torna uma aventura divertida e intrigante.

O jogo está disponível para PlayStation 5 e PC, como exclusivo temporário do console da Sony.

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Metodologia e fontes

Review publicada originalmente no Canaltech em 14 de setembro de 2021, com base na campanha completa jogada no PlayStation 5.

Fontes

Limitações

  • Texto escrito no lançamento do jogo; atualizações posteriores não foram consideradas.

Data de corte dos dados: 14 de setembro de 2021

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