O Brasil chegou à gamescom de 2026, em Colônia, na Alemanha, com cerca de 80 estúdios e empresas, a maior delegação que o país já levou à feira.
A principal novidade da edição foi o Brazilian Indie Pavilion, primeiro espaço do país na área aberta ao público, onde os visitantes puderam experimentar 35 jogos brasileiros. Até então, a presença brasileira se limitava à área de negócios, restrita a profissionais da indústria.
“É uma grande conquista em termos de visibilidade.” Rodrigo Terra, presidente da Abragames, em entrevista ao Jogometria
A delegação é organizada pelo Brazil Games, projeto da Abragames em parceria com a ApexBrasil para promover a competitividade internacional de desenvolvedoras brasileiras. Somaram-se ao projeto empresas apoiadas por Embratur, Sebrae-SP, Sebrae Nacional, AdeSampa e InvestSP, o que fez desta a edição com mais entidades públicas envolvidas ao mesmo tempo.
Quem bancou a delegação
A Abragames não informou quanto custou levar a delegação à Alemanha. Documentos públicos ajudam a dimensionar as fontes de financiamento, mas ainda não permitem calcular o custo total da missão.
O Brazil Games é executado por um convênio entre a Abragames e a ApexBrasil, com orçamento de R$ 25,3 milhões para 2025 e 2026. Metade sai da ApexBrasil e pode ser considerada investimento público; a outra metade é a contrapartida.
A ApexBrasil é uma entidade privada sem fins lucrativos, criada por lei e financiada principalmente por uma parcela de contribuição social compulsória. É supervisionada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e fiscalizada pelo Tribunal de Contas da União.
O dinheiro do convênio não é só para a gamescom. Ele cobre dois anos de participação brasileira em uma agenda inteira de eventos, da Game Developers Conference à Tokyo Game Show, além de capacitações e consultorias.
Na feira, os registros da edição de 2025 mostram o que o convênio pode custear: aluguel de espaço, montagem, credenciais, catering, materiais promocionais, viagens e ferramentas para reuniões. Naquele ano, esses itens somaram R$ 96.885,46 em despesas em reais e € 127.439,03 em euros, algo em torno de R$ 890 mil pelo câmbio da época, ou cerca de 3,5% do valor total do convênio.
A gamescom 2025 consumiu cerca de 3,5% do convênio Brazil Games
Orçamento total do convênio ApexBrasil e Abragames para 2025 e 2026, em R$ milhões
Fonte: Brazil Games, portal de transparência · Gasto de 2025 aproximado: soma de R$ 96.885,46 com € 127.439,03 convertidos pelo câmbio da época.
Do orçamento de R$ 25,3 milhões do convênio, cerca de R$ 0,89 milhão foi gasto na gamescom 2025, perto de 3,5% do total. O restante, R$ 24,41 milhões, cobre outros eventos e ações de 2025 e 2026.
| Recorte | Gasto na gamescom 2025 (R$ milhões) | Restante do convênio (R$ milhões) |
|---|---|---|
| Convênio Brazil Games (2025 e 2026) | 0,9 | 24,4 |
Fonte: Brazil Games, portal de transparência
Nota: Gasto de 2025 aproximado: soma de R$ 96.885,46 com € 127.439,03 convertidos pelo câmbio da época.
Outras entidades entraram com valores menores e mais definidos. A AdeSampa reservou até R$ 20 mil por participante para até dez selecionados, além das credenciais. O CreativeSP reembolsa metade das despesas de dez empresas, até US$ 3 mil por empresa. E o Prêmio Brasil Tá Pra Game, da Embratur com a Abragames, distribuiu R$ 190 mil, com os vencedores anunciados durante a feira.
| Entidade | Instrumento | Valor conhecido | O que cobre | Referência |
|---|---|---|---|---|
| ApexBrasil e Abragames | Convênio Brazil Games | R$ 25,3 milhões no total; metade da ApexBrasil, metade de contrapartida | Agenda de eventos internacionais, capacitações e consultorias | 2025 e 2026 |
| ApexBrasil e Abragames | Despesas do convênio na gamescom | R$ 96.885,46 mais € 127.439,03 (cerca de R$ 890 mil) | Espaço, montagem, credenciais, catering, materiais, viagens e ferramentas de reunião | gamescom 2025 |
| AdeSampa | Apoio a selecionados | Até R$ 20 mil por participante, para até dez selecionados, além das credenciais | Participação na feira | gamescom 2026 |
| CreativeSP | Reembolso | 50% das despesas de dez empresas, até US$ 3 mil por empresa | Despesas de participação | gamescom 2026 |
| Embratur e Abragames | Prêmio Brasil Tá Pra Game | R$ 190 mil em premiação | Premiação a estúdios, anunciada durante a feira | gamescom 2026 |
| Sebrae-SP, Sebrae Nacional e InvestSP | Apoio a empresas da delegação | Não divulgado | Não detalhado | gamescom 2026 |
O que esse investimento produz é a parte mais difícil de enxergar. A Abragames diz ter casos de estúdios que receberam aporte de grandes empresas do setor e de prestadoras que hoje trabalham em franquias AAA, mas afirma não ter autorização para citar nomes ou valores. A ApexBrasil afirma que, desde 2012, apoiou mais de 340 empresas e associa a si um crescimento superior a 3.500% nas exportações do setor.
Os jogos brasileiros na feira
Entre os 35 títulos do pavilhão indie, Hell Clock, da Rogue Snail com a Mad Mushroom, transforma a Guerra de Canudos em um RPG de ação sombrio. A Aoca Game Lab, de Salvador, levou dois títulos da franquia ARIDA, ambientada no sertão nordestino durante a seca. Entre as Estrelas, da Split Studio, é um RPG pintado à mão inspirado na cultura Guarani-Kaiowá e ambientado no Pantanal.
A Lenda de Niterói, da Seven Moons, é um metroidvania com cenários baseados na geografia real da Baía de Guanabara. Black Sailors, da Mandinga Games, é uma estratégia naval por turnos em que pessoas escravizadas viram piratas no Brasil colonial. Entre as apostas mais comerciais estavam o soulslike Deathbound, da Trialforge com a Tate Multimedia, e Irmão do Jorel e o Jogo Mais Importante da Galáxia, aventura point-and-click da Double Dash Studios.
Na área de negócios, o estande brasileiro apresentou cinco jogos de apenas dois estúdios: a Hermit Crab Game Studio, com SPORTIA e FC Barcelona Moments, e a Venn Studios, com Paradoxical, Rogue Reigns e Dark Island: Faded Memories.
Dos selecionados, 14 chegaram por um único programa paulista, mas a ampliação da delegação abriu espaço para nomes fora do eixo Rio-São Paulo. É o caso da OPS Game Studio, de São Luís, primeiro estúdio do Maranhão na gamescom de Colônia, que chegou à feira como vencedor do Prêmio Brasil Tá Pra Game. O estúdio levou Lunar Axe, jogo de investigação em que o protagonista fica preso numa casa abandonada após um terremoto e descobre um artefato místico ligado à história da cidade.
“Nosso estúdio quer construir jogos que carregam nossas raízes e essência, e Lunar Axe e nosso próximo projeto seguem isso à risca: levar nossa visão criativa para o mundo.” Kassio Sousa, cofundador da OPS Game Studio, em entrevista ao Jogometria
Além dos estúdios
A delegação não incluiu só desenvolvedoras. Integraram o grupo a Nuuvem, plataforma brasileira de distribuição digital, e a Theogames, agência de comunicação e marketing de games com sede em São Paulo, operação em outros cinco países da América Latina e clientes como Activision, Capcom, SEGA e Warner Bros.
Completam a lista empresas de áudio, localização, tecnologia e desenvolvimento externo, que prestam serviço a grandes franquias sem que o público perceba. Segundo a Abragames, boa parte das exportações mapeadas pelo projeto vem justamente delas.
“O sucesso comercial de uma propriedade intelectual começa na área B2B, quando o estúdio entra em contato com parceiros de negócios, muito antes de o primeiro visitante apertar o play na área Indie.” Rodrigo Terra, presidente da Abragames, em entrevista ao Jogometria