Quando o diretor Stephan Vogler e o estúdio alemão CipSoft lançaram Tibia, há exatos 25 anos, ninguém imaginava o tamanho que um dos “pais dos MMORPGs” alcançaria. Poucos anos depois do lançamento, Vogler soube de um protesto de rua no Brasil. Num ato a favor da educação, um manifestante erguia uma placa: “eu não aprendi inglês na escola, aprendi em Tibia”.
A cena não é coincidência. Tibia é um dos MMORPGs de maior sucesso e mais longa duração, e o Brasil segue como sua maior base de jogadores 25 anos depois do lançamento. Só em 2021, 185 mil brasileiros jogaram Tibia. No mesmo ano, o jogo ganhou quatro servidores novos, dois deles na América Latina: Reinobra, na configuração “Optional PvP”, e Mudabra, em “Retro Open PvP”.
O recorde de jogadores online veio em 2007, com 64.028 pessoas conectadas ao mesmo tempo, quando a CipSoft relatava mais de 250 mil jogadores ativos. Em 2020, o jogo ainda chegou a um pico de 41 mil jogadores simultâneos, sinal de como Tibia conseguiu se manter ao longo do tempo.
Lan houses e famílias brasileiras
Os motivos do sucesso no Brasil são vários, contou Vogler em entrevista ao Canaltech. O primeiro, segundo ele, é a cultura das lan houses.
“Um deles certamente é a cultura de lan houses no Brasil. O arquivo para download de Tibia era pequeno, o jogo rodava em hardware antigo e era gratuito. Além disso, tínhamos pouca concorrência à medida que crescíamos no Brasil. Conhecemos e amamos o país por meio de Tibia.” Stephan Vogler, diretor da CipSoft, em entrevista ao Canaltech.
Um jogo que passa 25 anos no imaginário brasileiro cria raízes na formação das pessoas. Vogler lembra de ter descoberto essa relação íntima quando chegou ao país: “Não tínhamos o Brasil como mercado perfeito para nós, mas aconteceu e foi uma surpresa. A primeira coisa que parceiros de negócios fizeram foi nos convidar para suas casas e nos apresentar toda a família. Isso é algo que nunca aconteceria na Alemanha”.
O diretor também lembra que muita gente construiu a vida em torno do jogo no Brasil. A plataforma de pagamentos Boa Compra, por exemplo, nasceu por causa de Tibia. “Esses eram jogadores que tinham um cartão de crédito e compravam coisas no jogo para seus amigos”, contou.
Uma pesquisa da CipSoft de 2009 mostrou jogadores de muitos países, com a maior parte vivendo no Brasil (26,56%, cerca de 75 mil), seguida pela Polônia (24,38%).
Por que Tibia durou tanto
Até agora, Tibia faturou mais de US$ 175 milhões, enquanto parte dos concorrentes da mesma época caiu no esquecimento.
Em 2020, ano em que começou a pandemia de covid-19, a CipSoft anunciou que Tibia chegou a uma média de 100 mil jogadores por dia. No mesmo ano, o estúdio registrou mais de € 25 milhões em receita, cerca de 10 milhões a mais que no ano anterior.
Para Vogler, um dos segredos do sucesso duradouro é a gestão financeira “pé no chão” e independente da CipSoft, além da liberdade dada ao jogador.
“Sempre fomos cuidadosos e apenas investimos dentro da nossa receita corrente. Nunca tomamos um empréstimo, não temos investidor ou editor. Fizemos tudo por conta própria e nunca gastamos mais do que o que tínhamos. Nunca colocaremos em risco o sucesso de longo prazo de Tibia para obter lucros de curto prazo. Outros estúdios já tentaram essa estratégia, correram grandes riscos e contrataram muitos funcionários. Se as receitas não crescerem como esperavam, as empresas se tornarão insolventes e terão que parar de operar seus jogos.” Stephan Vogler, diretor da CipSoft, em entrevista ao Canaltech.
NFTs podem chegar a Tibia
A troca de itens entre jogadores sempre fez parte do DNA de Tibia e criou um mercado próprio dentro do jogo. No começo, as negociações não tinham garantia: um jogador colocava algo no chão, o outro pegava o item e deixava outra coisa no lugar.
Como as trocas não eram seguras e muitos jogadores acabavam enganados, Tibia implementou em 2000 um recurso de “comércio seguro”. Em 2020, foi a vez do Char Bazaar, que permite negociar personagens.
Com um mercado tão ativo, não surpreende que a CipSoft estude itens em NFT para aquecer e dar mais segurança às transações. Questionado sobre o tema, Vogler admitiu que a tecnologia está em análise. “Negociar é uma grande parte do jogo, então há uma conexão muito natural com criptomoedas. Também vemos que a comunidade do jogo está interessada neste tópico, então é claro que estamos olhando para ele. Mas ainda não há planos concretos”, disse.
Em 2020, a desenvolvedora lançou LiteBringer, um jogo totalmente baseado em blockchain.
“Continuaremos a desenvolver Tibia. Vamos adicionar novos recursos, tornar o mundo maior e mantê-lo interessante. Vamos ouvir os jogadores e nos esforçar para dar a eles mais do que gostam. O ano de 2022 certamente terá uma ou duas surpresas, mas não quero revelar muito ainda”, concluiu Vogler.
O mundo online e medieval de Tibia é um dos MMORPGs mais conhecidos do mundo e está disponível de graça para computadores.