O jogador entra na escola, sobe todas as escadas e vai até o terraço. De frente para a balaustrada, um NPC (personagem não jogável) olha para o horizonte e pergunta: “será que é agora que eu viro o protagonista do anime?”. Foi com esse bom humor, referências a animes e críticas sociais que o roteiro de Dodgeball Academia chamou atenção em 2021.
Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Pocket Trap e publicado pela Humble Games, o jogo aparece entre os 50 melhores jogos de Nintendo Switch deste ano, segundo o Metacritic. O RPG tem mecânicas criativas nas batalhas de queimada e um texto cheio de boas e engraçadas novidades.
O roteiro é um dos pontos altos de uma aventura sobre um jovem estudante de queimada que quer ser o melhor e parte para uma escola do esporte. A trama tira sarro de animes shounen como Dragon Ball e Naruto, ao mesmo tempo que se inspira muito neles.
Para quem joga em português do Brasil, os diálogos ganham ainda sotaques, regionalismos e críticas sociais que pegam de surpresa. Em um dos oito capítulos, o jogador enfrenta os “bolaquadraticos”, fanáticos que acreditam que as bolas de queimada são, na verdade, quadradas.
O trecho é uma crítica ao terraplanismo e mostra um jogo que não tem medo de dizer o que pensa, de ser exagerado e até bobo em alguns momentos. O texto entende tão bem como o brasileiro pensa hoje que jogar Dodgeball Academia não é só acompanhar uma história: é ter uma trama que senta do seu lado e se diverte com você durante a jornada.
Como o roteiro foi criado
Roteirista do jogo, Tiago Rech entrou na equipe da Pocket Trap, apaixonada por animes, quando o RPG de queimada dava os primeiros passos. Segundo ele, um dos segredos do roteiro é o exagero e a superlativização das falas e situações.
“Em vez de um personagem dizer que iria dar uma bolada, ele fala em dar uma 'boladaça'. Fica mais engraçado, porque é mais ridículo.” Tiago Rech, roteirista de Dodgeball Academia, em entrevista ao Canaltech
Entre as inspirações, Rech cita muitos animes e quadrinhos, como Space Dandy, do criador de Cowboy Bebop, Asobi Asobase e Turma da Mônica.
“Tem uma tirinha da Turma da Mônica que ficou marcada a ferro na minha cabeça. Nela, o Cebolinha está fazendo alguma m... com a Mônica. Quando tudo obviamente dá errado, o Cebolinha fala 'agora que a porca torce o rabo'. Aquilo ficou na minha cabeça e eu queria colocar no roteiro.” Tiago Rech, roteirista de Dodgeball Academia, em entrevista ao Canaltech
O jogo se preocupa em incluir regionalismos no texto. Uma das inspirações é a dublagem brasileira de Yu Yu Hakusho. “Ela é muito boa. Eles usam muitas expressões, muitas gírias na dublagem do Yusuke”, conta Rech.
Os regionalismos aparecem por toda parte. O roteiro foi escrito originalmente em inglês, por causa da publicadora estrangeira, e depois ganhou uma localização com muita atenção aos detalhes. Os itens equipáveis e de saúde vão de brigadeiro a suco de acerola, passando por cuecas freadas, e os sotaques dos personagens aparecem escritos nos balões de diálogo.
Além de expressões como “visse” e “oxe”, cada personagem tem seus cacoetes de fala. Um personagem possivelmente carioca, por exemplo, escreve algumas palavras com “s” e “x” a mais.
“O mais comum é uma linguagem neutra na tradução de jogos. Precisamos usar mais o cenário e a cultura nacional nos jogos. E digo isso com muito cuidado para não parecer ufanista. Não é sobre ser patriota, colocando tudo verde e amarelo. É sobre aproveitar e trazer nossa cultura.” Tiago Rech, roteirista de Dodgeball Academia, em entrevista ao Canaltech
Uma visão crítica dos animes
Ao mesmo tempo em que bebe muito das animações japonesas, Dodgeball Academia também as critica, obra de um roteirista que fala delas o tempo todo. “Eu adorava o começo de Naruto. Assistia semanalmente. Mas a coisa desandou e li o final da história pela Wikipedia”, conta.
Para Rech, o jogo tem a cara dos shounen quando fala de superação, mas ele quis mudar a moral da história. “Esse gênero sempre tem o personagem que quer ser mais forte, treina para isso e realmente fica mais forte que todo mundo. Eu não acredito que temos o controle sobre ser o mais forte. Você não consegue determinar se será o mais forte, apenas se será o melhor que pode ser”, diz.
A ruptura com esse estilo de anime aparece no final da história. Rech quis evitar o herói que chega sozinho para salvar o dia.
“Em Dragon Ball, todo mundo fica apanhando até o Goku chegar e dar um pau no inimigo sozinho. Essa é uma parada que detesto. Tentei fazer com que cada personagem em Dodgeball Academia tivesse seu papel no final. No fim das contas, o jogo é uma história de equipe e, clichê por clichê, prefiro ir com esse.” Tiago Rech, roteirista de Dodgeball Academia, em entrevista ao Canaltech
A recepção do jogo
Rech acompanha de perto as reações a Dodgeball Academia. Fã do designer Tim Schafer e de Monkey Island, ele relembra vários momentos da série da LucasArts. “Queria um dia escrever uma piada tão boa como as do Tim Schafer”, confessa.
O roteirista se diz feliz com a recepção. Entre os destaques, lembra o elogio do jornalista Rique Sampaio aos sotaques do jogo no podcast Overloadr e um tweet do produtor de conteúdo Makson Lima. “O Makson escreveu que o jogo tinha se tornado uma referência. Isso é muito doido”, diz Rech.
Continuação ou adaptação?
Rech diz não saber nada sobre uma sequência, mas voltaria ao universo da queimada. “Gostaria muito de voltar para Dodgeball, mas vamos esperar para ver o que vai acontecer.” Ele também acredita que a história poderia virar filme ou série: “Não sei se vai existir, mas acho que o mundo permite a criação de várias outras histórias”.
Entre as tramas que ficaram de fora do roteiro final, ele lembra de uma missão que misturaria investigação e cenários psicodélicos.
“Uma história que ficou de fora do jogo falava sobre contrabando na escola. No lugar de drogas, pensamos em colocar energético. Os alunos iriam tomar o energético e ficar doidões de açúcar. A ideia era levar as batalhas da missão para quadras com psicodelia e formas geométricas flutuando no espaço. Dá para fazer muita coisa dentro daquela escola.” Tiago Rech, roteirista de Dodgeball Academia, em entrevista ao Canaltech